A segunda-feira, 17 de novembro, expôs dois retratos opostos da vida universitária na USP. Horas antes do tumulto que impediria André Lajst de falar na Faculdade de Direito, o prédio histórico da instituição sediou um encontro marcado pela defesa do diálogo e pelo enfrentamento ao antissemitismo. O coquetel, promovido pela Fraternidade Judaica de Alunos da USP em parceria com a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito, reuniu cerca de 60 participantes entre ex-alunos judeus e não judeus, professores, juristas e representantes de instituições dedicadas ao combate ao ódio e à discriminação. O objetivo era debater o antissemitismo na comunidade acadêmica e reparar a ofensa sofrida por Lajst após uma postagem antissemita feita por estudantes da universidade.
A cerimônia foi conduzida pela advogada Beyla Ester Fellous, ex-aluna da Faculdade de Direito da USP, que destacou o trabalho constante da Fraternidade Judaica na promoção de conscientização dentro da instituição. O diretor da faculdade, Celso Campilongo, reforçou a importância de manter o ambiente acadêmico como espaço livre de discriminações e comprometido com a liberdade de expressão e o acolhimento de todas as comunidades. Para ele, a Faculdade de Direito deve garantir um espaço plural e democrático, no qual o debate seja preservado e nenhum estudante se sinta intimidado.
Ana Beatriz Prudente Alckmin, presidente da Fraternidade Judaica de Alunos da USP e embaixadora da CONIB, afirmou que a Faculdade de Direito tem se tornado um local seguro para estudantes judeus de toda a USP, muitos dos quais optam por realizar atividades e encontros na unidade por se sentirem mais protegidos ali. Segundo ela, o ataque sofrido por Lajst afetou coletivamente a comunidade judaica na universidade, incluindo alunos, professores e servidores. O advogado Rui Caminha, presidente da Associação dos Antigos Alunos, destacou a relevância do tema e reconheceu que a comunidade judaica foi ofendida. Ele relembrou o papel histórico da faculdade na formação política do país e alertou para o perigo da unanimidade de pensamento.
Participaram ainda figuras públicas e acadêmicas que alertaram para o crescimento de manifestações antissemitas em universidades ao redor do mundo e defenderam a necessidade de uma atuação firme contra esse tipo de hostilidade. Fernando Lottenberg chamou a atenção para a escalada de ataques antijudaicos em campi estrangeiros e o risco de episódios semelhantes se repetirem no Brasil. O diretor-geral da CONIB, Sergio Napchan, reforçou o papel da Confederação no apoio à comunidade judaica e no combate ao ódio. O ministro Flávio Bierrenbach e a vereadora Cris Monteiro destacaram a importância de reafirmar valores civilizatórios e de impedir que manifestações racistas ou apologias ao nazismo encontrem espaço na vida pública. A professora Maristela Basso relatou a dificuldade de abordar temas ligados ao Oriente Médio com isenção ideológica dentro da faculdade. Ao final, André Lajst agradeceu o acolhimento e afirmou que a iniciativa da faculdade representa proteção a toda a coletividade judaica no ambiente acadêmico.
Poucas horas depois desse gesto de reparação e diálogo, a Faculdade de Direito enfrentaria um episódio completamente oposto. Durante o ciclo Conversas sobre o Mundo, um grupo de manifestantes liderado pelo Centro Acadêmico XI de Agosto tentou impedir que Lajst falasse sobre o conflito entre israelenses e palestinos. Antes mesmo do início da palestra, estudantes se posicionaram diante do auditório com gritos de “genocida” e outras hostilidades, bloqueando a fala do convidado e inviabilizando o debate. Algumas das frases dirigidas ao palestrante afirmavam que ele não era bem-vindo na universidade e que não haveria debate com alguém considerado “opressor”. A convocação do protesto, posteriormente apagada, expressava repúdio à presença de “sionistas” no campus, linguagem amplamente criticada por especialistas e membros da comunidade judaica por remeter a discursos antissemitas que associam judeus a uma ameaça a ser excluída do espaço acadêmico.
O diretor Celso Campilongo condenou o episódio e afirmou que protestos são legítimos, mas não podem impedir o palestrante de falar, pois isso fere princípios fundamentais da vida universitária. A tentativa de silenciar Lajst foi amplamente vista como um grave caso de intolerância política e intelectual, aproximando-se perigosamente de práticas antissemitas ao estigmatizar um convidado judeu em razão de sua identidade e posição política.
O contraste entre os dois episódios do mesmo dia evidencia o dilema atual da universidade. Enquanto um grupo mobilizou diálogo, acolhimento e defesa das liberdades democráticas, outro atuou para impor o silêncio e hostilizar um convidado que sequer teve a chance de expor suas ideias. Para a comunidade judaica e para todos que defendem o livre debate, a mensagem é clara: a universidade precisa reafirmar seu compromisso histórico com a pluralidade, a segurança e a liberdade acadêmica, garantindo que episódios de intimidação e ódio não se sobreponham ao espírito democrático que deve nortear a vida acadêmica.
Matéria: Beatriz Novik Falcão e Jairo Roizen.
Foto: Gabriel Kosman.













