Uma pesquisa inédita divulgada nesta quinta-feira, 22 de janeiro, no Memorial do Holocausto de São Paulo, revela um cenário preocupante sobre o conhecimento da população brasileira a respeito da Shoá. Apenas 53,2% dos entrevistados conseguiram definir corretamente o Holocausto como o extermínio sistemático de seis milhões de judeus pelo regime nazista, e mais da metade dos brasileiros não sabe o que foi Auschwitz.

Embora a maioria das pessoas afirme ter algum conhecimento sobre o tema, os dados apontam que essa compreensão é, em grande parte, superficial, fragmentada e desigual, especialmente entre grupos com menor escolaridade e renda. O levantamento escancara a distância entre a percepção subjetiva de conhecimento e a real compreensão histórica de um dos maiores crimes da humanidade.

A pesquisa “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil” foi realizada ao longo de 2025, nos meses de abril, setembro e outubro, com 7.762 entrevistas presenciais em 11 regiões metropolitanas do país. O estudo foi conduzido pelo Instituto ISPO, do Rio Grande do Sul, a pedido da Confederação Israelita do Brasil (CONIB), do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Museu do Holocausto de Curitiba e da StandWithUs Brasil.

Os resultados foram apresentados por Hana Nusbaum, gerente de Educação da StandWithUs Brasil. O evento também contou com falas do diretor executivo da CONIB, Sergio Napchan, dos sobreviventes do Holocausto Hannah Charlier e Gabriel Waldman, de representantes do Memorial do Holocausto de São Paulo, Sarita Saruê e o rabino Toive, além de Salus Loch, do ISPO, e Carlos Reiss, coordenador do Museu do Holocausto de Curitiba.

Entidades organizadoras | Foto: Felipe Araújo

Na avaliação das entidades organizadoras, os dados reforçam a urgência de ampliar e qualificar o ensino do Holocausto no Brasil como ferramenta essencial para a preservação da memória, o combate à desinformação e a prevenção de discursos de ódio, além de contribuir para a formação de cidadãos comprometidos com os direitos humanos e a democracia.

Durante o evento, Sergio Napchan destacou que o desconhecimento histórico cria um terreno fértil para distorções, relativizações e negacionismos. Segundo ele, preservar a memória do Holocausto não é uma responsabilidade exclusiva da comunidade judaica, mas um compromisso coletivo, democrático e civilizatório. Napchan afirmou ainda que, apesar dos avanços na conscientização sobre o tema, a pesquisa demonstra que sua implementação ainda não alcança a sociedade de forma efetiva.

Para o diretor executivo da CONIB, educar sobre o Holocausto precisa sair do campo das intenções e se transformar em práticas contínuas, qualificadas e acessíveis. Ele ressaltou a importância de fortalecer a atuação junto aos sistemas de ensino, universidades, instituições culturais e meios de comunicação, destacando o papel central da imprensa na forma como o tema é retratado, contextualizado e compreendido, especialmente pelas novas gerações.

A CONIB avalia que o desconhecimento revelado pela pesquisa não representa apenas um dado estatístico, mas um fator de risco social. A fragilidade na compreensão do Holocausto abre espaço para narrativas negacionistas e relativizações que impactam diretamente a segurança simbólica e social das comunidades judaicas e de outras minorias. Preservar a memória da Shoá, nesse contexto, integra o compromisso democrático do Estado brasileiro com a educação, os direitos humanos e a verdade histórica.

Os resultados também evidenciam um paradoxo relevante. Embora a maioria da população reconheça a importância do ensino do Holocausto, o acesso a iniciativas educativas estruturadas permanece extremamente limitado. Esse descompasso aponta para a necessidade de fortalecer políticas públicas, ampliar parcerias institucionais e garantir que o ensino do tema seja contínuo e adaptado às diferentes realidades sociais do país.

O Holocausto integra a Base Nacional Comum Curricular, documento fundamental da Educação Básica brasileira, e aparece em currículos estaduais e materiais didáticos. Ainda assim, a pesquisa indica que a presença formal do tema não tem sido suficiente para assegurar uma compreensão sólida e abrangente entre a população.

Para a CONIB, o estudo oferece uma base concreta para orientar ações futuras, ampliar parcerias e fortalecer políticas educacionais que consolidem a memória como um pilar essencial da democracia e da convivência plural no Brasil.

O levantamento completo está disponível para download.