A Congregação Israelita Paulista (CIP) recebeu, neste domingo (25), o Ato em Memória às Vítimas do Holocausto, que reuniu autoridades civis, lideranças políticas e religiosas, sobreviventes, jovens e representantes da comunidade judaica. Realizada por ocasião do Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, a cerimônia foi marcada por discursos de alerta sobre a normalização do antissemitismo e do extremismo, além da reafirmação do compromisso com a democracia, os direitos humanos e a preservação da memória histórica.
Promovido pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), pela Congregação Israelita Paulista e pela StandWithUs Brasil, o ato contou com a presença do governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, além de secretários estaduais e municipais, representantes do corpo diplomático, lideranças comunitárias e sobreviventes do Holocausto.
A solenidade teve início com a execução do Hino Nacional Brasileiro, interpretado por Sabrina Shalom. Na abertura, a presidente da CIP, Laura Feldman, destacou que a memória do Holocausto não pode ser tratada apenas como um registro do passado. Segundo ela, lembrar é um compromisso ativo que exige posicionamento diante do antissemitismo e de todas as formas de intolerância. Para Feldman, o “Nunca Mais” precisa ser traduzido em ações concretas no presente.

Em um dos discursos mais contundentes da cerimônia, a presidente da Fisesp, Célia Parnes, provocou a plateia ao questionar se a sociedade seria capaz de reconhecer hoje os sinais que antecederam o Holocausto. Segundo ela, a tragédia não ocorreu por ausência de alertas, mas porque o mundo se acostumou ao discurso de ódio, às exceções morais e à violência justificada. Para Célia, o Holocausto representou um colapso civilizatório que só foi possível porque a desumanização foi normalizada passo a passo.
Ao relacionar o passado com o cenário atual, a presidente da Fisesp alertou para sinais que não podem ser ignorados. Citou pichações antissemitas em escolas e sinagogas, profanação de cemitérios judaicos, boicotes acadêmicos e culturais que excluem judeus por constrangimento institucional e a disseminação de fake news que utilizam o antissionismo como linguagem aceitável para o antissemitismo. Segundo ela, respostas brandas ou o silêncio diante desses episódios revelam a dificuldade de nomear o problema e enfrentá-lo com a seriedade que ele exige.
Célia Parnes também ressaltou que, hoje, a proteção aos judeus deixou de ser uma pauta exclusivamente comunitária e se tornou um teste moral para governos e para toda a sociedade. Ao lembrar que a Fisesp completa 80 anos em 2026, destacou o papel da Federação na articulação com o poder público e as forças de segurança, atuando na prevenção de riscos, na proteção coletiva e na comunicação estratégica com a comunidade. Para ela, o fato de a cerimônia acontecer na CIP reforça o sentido democrático do ato, já que a sinagoga sempre foi um espaço de diálogo com a cidade, o país e o seu tempo.

O cônsul-geral de Israel em São Paulo, Rafael Erdreich, destacou o desafio de preservar a verdade em um ambiente marcado pela desinformação. Em sua fala, alertou para a tentativa de impor mentiras como fatos e para o avanço de narrativas que buscam substituir a empatia pelo ódio, reforçando a responsabilidade coletiva de garantir que valores humanos prevaleçam.
O presidente da Conib, Cláudio Lottenberg, afirmou que a memória do Holocausto é um alerta permanente voltado ao futuro. Ele lembrou que o genocídio não aconteceu de forma repentina, mas foi resultado da normalização do ódio, do enfraquecimento das instituições democráticas e do silêncio diante do extremismo. Segundo Lottenberg, o combate ao antissemitismo não é uma pauta ideológica, mas uma missão essencial de toda a sociedade para impedir que o ódio volte a produzir vítimas.
Antes da fala do governador, o presidente da StandWithUs Brasil, André Lajst, reforçou que lembrar o Holocausto é um compromisso contínuo com o presente e uma garantia para o futuro. Para ele, a memória é uma ferramenta central no enfrentamento à indiferença e ao extremismo.

Em seu discurso, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que a única forma de homenagear as vítimas do Holocausto é impedir que uma tragédia semelhante volte a acontecer. Destacou que o Holocausto não surgiu de forma abrupta, mas foi construído pela normalização do extremismo, pela disseminação de falsidades e pela omissão diante de sinais evidentes. O governador ressaltou a adesão do Estado de São Paulo à definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto e afirmou que tornar esse conceito efetivo é uma medida concreta de proteção à comunidade judaica e de fortalecimento da democracia.
Tarcísio também destacou a contribuição da comunidade judaica para o Estado de São Paulo, citando exemplos nas áreas da saúde, da segurança comunitária e da solidariedade. Para ele, preservar valores como tolerância, respeito e acolhimento é uma responsabilidade central do poder público, especialmente em tempos de polarização e radicalização do discurso.
Um dos momentos mais emocionantes da cerimônia foi o depoimento da sobrevivente do Holocausto Ruth Sprung Tarasantchi. Nascida em 1933, em Sarajevo, na então Iugoslávia, Ruth sobreviveu à perseguição nazista após fugir com a família e passar quatro anos confinada no campo de Ferramonti, na Itália. Aos 92 anos, ela relembrou a destruição da comunidade judaica de sua cidade natal, Bugojno, a perda de familiares assassinados e a experiência da fome, da perda da liberdade e da espera interminável no confinamento. Naturalizada brasileira, Ruth é artista plástica, historiadora da arte, escritora e diretora do acervo do Museu Judaico de São Paulo.
A cerimônia foi conduzida pelo presidente executivo da Fisesp, Ricardo Berkiensztat. Ao longo do ato, o chazan Marcio Besen interpretou o Hino dos Partisans, símbolo da resistência judaica durante a Segunda Guerra Mundial. Seis velas foram acesas em homenagem aos seis milhões de judeus assassinados pelo regime nazista e a todas as demais vítimas do ódio, da intolerância e da perseguição, em um ritual que reuniu autoridades, lideranças comunitárias, jovens e sobreviventes, reforçando a transmissão da memória entre gerações.
O público também assistiu ao teaser do documentário Soul on Fire, que retrata a trajetória de Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e Prêmio Nobel da Paz, cuja vida foi dedicada à defesa da dignidade humana e ao combate à indiferença. A obra terá exibição especial seguida de debate no dia 27 de janeiro.

O ato foi encerrado com a entoação do Kadish, a oração judaica pelos mortos, conduzida pelos rabinos Natan Freller e Uri Lam, e com o Hino de Israel, interpretado pela cantora Fortuna. Também estiveram presentes autoridades como o secretário de Governo e Relações Institucionais do Estado de São Paulo, Gilberto Kassab, o ex-chanceler Celso Lafer e o secretário municipal de Justiça, André Lemos, representando o prefeito Ricardo Nunes.
Mais do que uma cerimônia simbólica, o Ato em Memória às Vítimas do Holocausto foi um alerta claro e direto. Ao recordar a maior tragédia do século XX, a comunidade judaica e a sociedade brasileira reafirmaram um compromisso coletivo com a vigilância democrática, o enfrentamento ao ódio e a responsabilidade de não permitir que a história volte a se repetir.












