Como falas de figuras públicas reverberam no antissemitismo online

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Como falas de figuras públicas reverberam no antissemitismo online - Foto: Lívia Bella

Declarações e gestos de personalidades públicas em ambientes de grande visibilidade têm o potencial de repercutir rapidamente nas redes sociais e influenciar o tom do debate público. E nos últimos dias, episódios envolvendo manifestações políticas de figuras conhecidas da sociedade brasileira voltaram a colocar em pauta a relação entre discursos públicos, desinformação e o aumento de conteúdos antissemitas no ambiente digital.

Um dos casos recentes envolve o sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que, na última segunda-feira (9), publicou um vídeo em seu perfil no Instagram no qual ele faz uma associação do caso do agressor sexual Jeffrey Epstein, ao que chamou de “lobby judaico”, além de outras teorias conspiratórias envolvendo o “supremacismo judaico” e o “Holocausto judeu cafetinado pelo sionismo”.

A publicação em questão gerou ampla repercussão e motivou reações de entidades representativas da comunidade judaica, como a Conib e a Stand With Us, por exemplo, que apontaram a utilização de estereótipos historicamente associados ao antissemitismo como perigosa, pois quando esse tipo de narrativa é difundido por figuras públicas com grande alcance, ele tende a ganhar maior visibilidade e a estimular a circulação de comentários hostis e conteúdos discriminatórios nas redes sociais.

Outro episódio dos últimos dias que ampliou o debate foi o artigo “A Hipocrisia na Fala”, de Salem Nasser, professor de Direito da FGV SP, publicado na Folha de S.Paulo no último domingo (8). No texto, há três erros factuais a respeito de temas históricos e políticos relacionados ao Estado de Israel, sendo eles de que no país há apartheid, de que houve genocídio em Gaza durante a guerra por parte do exército israelense e que antes da criação do Estado, em 1948, houve a “expulsão forçada de palestinos de suas terras”.

Mais uma vez, tais declarações geraram respostas de representantes da comunidade judaica e de especialistas em Relações Internacionais e Direito, que apontaram as afirmações como imprecisas e passíveis de alimentar interpretações equivocadas sobre o conflito no Oriente Médio e sobre a história da criação do Estado de Israel.

Em nota pública, a Conib novamente destacou a importância de diferenciar críticas legítimas a políticas governamentais de narrativas que reproduzem estigmas históricos ou que se apoiam em informações não verificadas.

Babu, participante do Big Brother Brasil 2026, fez referência ao conflito entre Israel e Palestina durante uma fala – Foto: Reprodução/Globo

O terceiro caso envolve Babu, participante do reality show Big Brother Brasil 2026, que, na madrugada desta quinta-feira (12), durante a Festa do Líder, fez uma manifestação ao vivo pedindo “Paz pra Palestina” e repetindo a frase “Palestina livre”. E embora as expressões não tenham, em si, teor antissemita, a ampla repercussão do episódio nas redes sociais reacendeu debates e, em alguns casos, foi acompanhada pela circulação de comentários e conteúdos hostis direcionados a judeus e a Israel.

O conjunto recente de episódios evidencia como manifestações feitas em espaços de grande visibilidade podem influenciar o tom do debate público e impactar diretamente o ambiente online. Mais do que restringir o debate, o desafio apontado por representantes da comunidade judaica e por especialistas é promover uma discussão pública baseada em informações verificadas, responsabilidade discursiva e na clara distinção entre críticas políticas legítimas e narrativas que contribuam para a disseminação de preconceitos históricos, incluindo o antissemitismo.