Ato de Yom HaShoá reúne gerações no Memorial do Holocausto de São Paulo

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No último dia 13 de abril, o Memorial do Holocausto e da Imigração Judaica de São Paulo foi palco de uma cerimônia profundamente comovente e significativa: o Ato de Yom HaShoá. Realizado pela comunidade judaica paulista, o evento reuniu centenas de pessoas, com destaque para a expressiva presença de jovens, além de sobreviventes do Holocausto, lideranças comunitárias, autoridades e representantes da sociedade civil.

A abertura foi marcada por falas institucionais que ressaltaram a importância da memória como instrumento ativo de conscientização. O presidente da CONIB, Claudio Lottenberg, destacou que lembrar o Holocausto é também assumir um compromisso com o presente: “O Yom HaShoá não pode ser apenas memória, ele tem que ser sempre um sinal de alerta”. Em sua fala, enfatizou que tragédias como essa começam muito antes dos atos extremos, nas palavras, na indiferença e na naturalização do preconceito.

Na sequência, a presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Célia Parnes, trouxe uma reflexão sobre o peso simbólico do local e da história construída naquele território. Ao mencionar o bairro do Bom Retiro como espaço de reconstrução de vidas após a guerra, reforçou o papel do Memorial como guardião da verdade em tempos de distorção dos fatos. “Lembrar é uma escolha e um exercício constante”, afirmou, destacando a importância de preservar a memória como um compromisso coletivo.

O momento mais marcante da noite foi o depoimento do sobrevivente George Legmann, que emocionou o público ao compartilhar sua trajetória. Nascido no campo de concentração de Dachau, em 1944, ele integra o grupo conhecido como os “bebês de Dachau”, crianças que sobreviveram após nascerem em campos nazistas. Seu testemunho ecoou como um símbolo de resistência e continuidade: “Sou prova viva de que a vida pode florescer mesmo em meio ao horror mais absoluto. Estou aqui porque alguém acreditou que um bebê podia sobreviver, e isso me deu o dever de contar essa história.”

A cerimônia foi conduzida por Sarita Mucinic Sarue, coordenadora educacional do Memorial do Holocausto, e contou ainda com falas do cônsul de Israel em São Paulo, Rafael Erdreich, do rabino Toive Weitman, diretor do Memorial, de André Lajst, presidente executivo da StandWithUs Brasil, e de jovens do Conselho Juvenil Sionista. Em comum, todos reforçaram a importância da educação e da construção de um olhar crítico sobre a Shoá como forma de combater o negacionismo, o antissemitismo e todas as formas de intolerância. Também foi consenso entre as lideranças a importância da existência de Israel como o lar nacional do povo judeu — como garantia de continuidade, segurança e autodeterminação.

O encerramento foi marcado por um momento de intensa emoção: seis velas foram acesas em memória dos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas, em um ritual conduzido por sobreviventes, acompanhados por jovens. A cena simbolizou, de forma tocante, a transmissão do legado da memória às novas gerações.

Após a cerimônia solene, o público presente teve a oportunidade de participar da inauguração da exposição “Eles nos deram esperança de novo – gravidez e nascimento no subcampo Kaufering 1, Dachau”, apresentada pelo sobrevivente George Legmann. Idealizada pelo Memorial de Dachau, na Alemanha, a mostra apresenta um dos episódios mais singulares da história do Holocausto: o nascimento e a sobrevivência de sete bebês em um sistema criado para a morte. Composta por 37 painéis com documentos e registros históricos, a exposição convida o público a refletir sobre vida, resistência e humanidade em meio à barbárie.

Ato de Yom HaShoá reafirmou o compromisso da comunidade judaica paulista com a preservação da memória do Holocausto e com a luta permanente contra o ódio e a intolerância — mostrando, mais uma vez, que lembrar é também resistir.