Em clima de Copa do Mundo, exposição “Camisas Contra o Ódio” chega ao Memorial do Holocausto de São Paulo

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Mostra reúne 36 camisas usadas por grandes clubes, seleções e jogadores em campanhas contra o racismo, o antissemitismo e outras formas de violência

As 36 camisas não são por acaso. O número equivale a duas vezes 18, que na tradição judaica representa a palavra Chai (חי), que significa “vida”, em hebraico. Fotos: Maringas Maciel

São Paulo (SP), 03/06/2026 O Memorial do Holocausto de São Paulo recebe, de 15 de junho a 15 de setembro de 2026, a exposição inédita “Camisas Contra o Ódio”, criada pelo Museu do Holocausto de Curitiba. Em sintonia com o período de Copa do Mundo, a mostra utiliza o futebol — linguagem universal capaz de mobilizar milhões de pessoas — como ferramenta de reflexão sobre preconceito, memória e direitos humanos.

Fotos: Maringas Maciel

A exposição reúne 36 camisas de seleções e clubes de futebol de mais de seis países que, nos últimos anos, vestiram mensagens contra o antissemitismo, o racismo, as violências de gênero, a intolerância religiosa, o terrorismo e as guerras. Dividida em seis módulos temáticos, a mostra apresenta peças de clubes brasileiros como Corinthians, Flamengo, Vasco, Santos, São Paulo, Fluminense e Atlético Mineiro, além das seleções masculina e feminina do Brasil. No cenário internacional, reúne itens de equipes como Borussia Dortmund, da Alemanha, Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, além da Darfur United — seleção simbólica formada por refugiados da região oeste do Sudão — e clubes israelenses.

Fotos: Maringas Maciel

Os uniformes foram utilizados por atletas como Vinícius Júnior, Hulk e Germán Cano, e pela jogadora Geyse Ferreira, e estampam desde homenagens às vítimas do Holocausto até campanhas antirracistas e mensagens de paz. As peças revelam como o futebol pode ultrapassar o campo de jogo e se tornar uma potente plataforma de mobilização social.

O ponto de partida da exposição marca também um momento inédito na relação entre o futebol e a memória do Holocausto. Até então, esse tema praticamente não fazia parte do universo do esporte. Essa conexão só passa a existir a partir da iniciativa do Memorial do Holocausto de São Paulo em parceria com o Corinthians. A primeira peça do acervo é justamente a camisa utilizada pelo clube em novembro de 2019, no jogo contra o Fortaleza, que estampava uma estrela de David como parte da campanha “Uma estrela para não esquecer”, criada pela Tech & Soul em parceria com o Memorial. A ação inaugura um novo campo de diálogo, levando pela primeira vez a memória do Holocausto para dentro dos gramados e das arquibancadas.

A exposição ainda conta com o apoio do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, do Grupo de Estudos e Pesquisas Aplicadas ao Futebol (GEPAF), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. A concepção de arte é assinada pelo designer Michel Neuhaus.

DISCRIMINAÇÃO EM CAMPO

Fotos: Maringas Maciel

Embora seja um espaço de celebração e pertencimento, o futebol ainda reflete as estruturas de preconceito presentes na sociedade. Dados do Relatório da Discriminação Racial no Futebol, divulgado em 2024, apontam 250 incidentes discriminatórios registrados, sendo 222 no Brasil e 28 envolvendo atletas brasileiros no exterior. O racismo representa 75% dos casos, seguido por LGBTfobia (16%), xenofobia (6%) e machismo (4%).

O crescimento dos casos ao longo dos anos evidencia um cenário preocupante: desde 2016, os registros aumentam de forma contínua e, em comparação com 2014, houve um crescimento de 444% nos incidentes monitorados. O levantamento é desenvolvido em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Fotos: Maringas Maciel

Apesar desse cenário, o futebol também tem se mostrado um espaço de resposta ao ódio. Em janeiro de 2024, por exemplo, o Borussia Dortmund entrou em campo com a inscrição “#WeRemember”, em ação ligada ao Dia da Memória no Futebol Alemão, reafirmando o compromisso do esporte com a preservação da memória do Holocausto. O clube também promove iniciativas educativas, como visitas a antigos campos de concentração e programas de combate ao discurso de ódio.

Outro destaque da exposição é uma camisa do Santos utilizada em 2022, que homenageia um episódio histórico de 1969, quando o clube, com Pelé, disputou uma partida na Nigéria durante a guerra civil. O jogo ficou conhecido como “o dia em que a guerra parou”, simbolizando o poder do futebol como instrumento de paz. A peça traz inscrições como “Juntos pela paz, juntos pelo futebol alegre” e referências àquele momento histórico.

Fotos: Maringas Maciel

Ao reunir essas histórias, “Camisas Contra o Ódio” propõe uma reflexão profunda sobre o papel do esporte na construção de uma sociedade mais justa, reforçando a importância da memória como ferramenta essencial no combate à intolerância.

SERVIÇO

Exposição: Camisas Contra o Ódio
Período: 15 de junho a 15 de setembro de 2026
Local: Memorial do Holocausto de São Paulo
Endereço: Rua da Graça, 160 – Bom Retiro, S. Paulo-SP
Funcionamento: de segunda à quinta, das 9h às 17h, e às sextas das 9h às 15h
Entrada gratuita mediante agendamento: https://agenda.memorialdoholocausto.org.br/