Em 18 de julho de 1994, às 9h53 da manhã, um carro-bomba explodiu em frente à sede da Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), no coração de Buenos Aires. O atentado tirou a vida de 85 pessoas, deixou mais de 300 feridas e se tornou o maior ataque terrorista da história da Argentina e o mais letal contra a comunidade judaica desde o Holocausto.
Trinta e um anos depois, o massacre continua impune. A Justiça argentina apenas em 2024 reconheceu oficialmente a responsabilidade do regime iraniano e da organização terrorista Hezbollah pelo ataque, mas nenhum dos envolvidos foi julgado ou condenado até hoje. A dor da comunidade judaica, na Argentina e em todo o mundo, segue viva e acompanhada da indignação diante da impunidade.
O atentado à AMIA não foi um caso isolado. Dois anos antes, em 1992, um atentado suicida contra a embaixada de Israel em Buenos Aires matou 29 pessoas. Ambos os ataques, com características semelhantes, apontam para a atuação do terrorismo internacional em solo argentino e demonstram a vulnerabilidade da comunidade judaica diante de ameaças externas.
A comunidade judaica mundial voltou seus olhos para Buenos Aires nesta quinta-feira, 18 de julho de 2025, quando foi realizado o Ato Central em homenagem às vítimas. A cerimônia ocorreu em frente à sede da AMIA, na rua Pasteur 633, com depoimentos de familiares e a participação do presidente da instituição, Osvaldo Armoza. O lema da cerimônia deste ano, “A impunidade segue; o terrorismo também”, resumiu o sentimento de revolta e persistência que marca mais um aniversário da tragédia.
Em uma nova produção audiovisual da AMIA, intitulada Aniversários, com narração do ator Ricardo Darín, o vídeo reflete sobre o impacto duradouro da tragédia: “O sofrimento não entende de números. Ele não precisa de uma data redonda para se fazer presente. Ele vive de perguntas sem respostas e de buscas eternas”.
A partir de nova legislação, a Justiça argentina autorizou o julgamento à revelia de dez iranianos e libaneses acusados de envolvimento direto no atentado. Entre eles estão altos ex-funcionários do regime iraniano, como o ex-ministro da Defesa Ahmad Vahidi, o ex-comandante da Guarda Revolucionária Mohsen Rezai, o ex-chanceler Ali Akbar Velayati, e Hadi Soleimanpour, ex-embaixador do Irã em Buenos Aires.
Apesar desse avanço simbólico, ainda não há condenações. O histórico de acobertamentos políticos e negligência é longo. Em 2013, a então presidente Cristina Kirchner assinou um memorando com o Irã que previa o interrogatório dos suspeitos em território iraniano, o que foi visto como uma tentativa de encobrir os culpados. O promotor Alberto Nisman, que denunciaria o acordo no Congresso, foi encontrado morto com um tiro na cabeça em 2015, num episódio que permanece cercado de suspeitas.
Em sua recente visita a Israel, o presidente argentino Javier Milei se comprometeu com a comunidade judaica a reforçar o sistema nacional de inteligência e garantir que tragédias como a da AMIA jamais se repitam. Ele também prometeu investir mais recursos nas investigações e apoiar a busca por justiça.
O presidente executivo da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Ricardo Berkiensztat, destaca a importância da memória e da cobrança por justiça. “A cada 18 de julho, renovamos nosso compromisso com as vítimas e seus familiares. Não podemos aceitar que um crime dessa magnitude, com provas fartas e responsabilidade internacional reconhecida, siga sem punição. A impunidade fortalece o terror. A justiça é o mínimo que se espera de uma sociedade democrática”.
Berkiensztat também lembra que o ataque à AMIA é um ataque a todos os judeus do mundo. “O antissemitismo que matou em Buenos Aires é o mesmo que ameaça comunidades judaicas em diversos países. Por isso, nossa solidariedade é global, e nossa voz continuará ecoando até que os culpados paguem pelos seus crimes”.
A Federação Israelita SP se soma às entidades da comunidade judaica argentina: AMIA, DAIA e os Familiares das Vítimas, na homenagem às vítimas e na exigência de justiça, reafirmando seu compromisso com a memória, a verdade e a segurança do povo judeu onde quer que ele esteja.













