Conib conclui primeira turma de Certificação em Enfrentamento ao Antissemitismo

3
Participantes fazem dinâmica em grupo

A luta contra o antissemitismo exige conhecimento, coragem e mobilização. Com essa convicção, a Confederação Israelita do Brasil (CONIB) celebrou, nesta terça-feira (23), na Unibes Cultural, em São Paulo, a conclusão da primeira turma da Certificação em Enfrentamento ao Antissemitismo, uma iniciativa pioneira que nasce com a missão de formar multiplicadores preparados para reconhecer, compreender e combater o preconceito em suas mais diversas manifestações.

O evento marcou o encerramento de uma jornada iniciada em março, durante o lançamento do programa no Centro de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Ao longo de meses de estudo, reflexão e troca de experiências, 190 participantes de diferentes áreas — entre eles educadores, advogados, médicos, lideranças comunitárias, profissionais liberais e formadores de opinião — tiveram acesso a uma ampla formação sobre os desafios contemporâneos relacionados ao antissemitismo.

A plataforma de ensino reuniu especialistas de referência nacional e internacional, que abordaram temas fundamentais para a compreensão do fenômeno antissemita na atualidade, incluindo a história do antissemitismo, geopolítica e antissionismo, aspectos jurídicos relacionados ao combate à discriminação, comunicação estratégica, contranarrativas e enfrentamento do discurso de ódio nos ambientes digitais.

Mais do que transmitir conhecimento, a certificação foi concebida para inspirar ação. O objetivo do programa é capacitar pessoas para atuar em seus próprios espaços de influência — sejam eles profissionais, acadêmicos, comunitários ou institucionais — contribuindo para a construção de uma sociedade mais preparada para enfrentar o preconceito, valorizar a diversidade e fortalecer os princípios democráticos.

Um encerramento marcado pelo diálogo e pela construção coletiva

O encontro de encerramento refletiu o espírito participativo que guiou toda a iniciativa. Em uma dinâmica no formato de hackathon, os participantes foram divididos em grupos para debater alguns dos temas mais sensíveis e atuais relacionados ao antissemitismo contemporâneo, entre eles o antissionismo nas universidades, a radicalização online, o papel das redes sociais, os boicotes a Israel, o aumento dos episódios antissemitas após o conflito no Oriente Médio, a educação de influenciadores digitais e o impacto jurídico do Caso Ellwanger.

A abertura do evento foi conduzida pelo diretor executivo da CONIB, Sergio Napchan, que ressaltou a importância estratégica do projeto e o compromisso permanente da instituição no enfrentamento ao antissemitismo e ao discurso de ódio.

Napchan também destacou o papel das instituições parceiras que contribuíram para o sucesso da iniciativa, entre elas o grupo ECO – Embaixadoras CONIB, a AMBI – Associação Médica Brasil-Israel, a StandWithUs Brasil, parceira na dinâmica do hackathon, além do apoio institucional do Congresso Judaico Latino-Americano (CJL).

“Esta é a primeira edição do curso e temos o compromisso de ouvir atentamente todos os participantes para aperfeiçoar as próximas etapas. Cada observação e sugestão será analisada com atenção para que possamos ampliar ainda mais o impacto da iniciativa”, afirmou.

Sergio Napchan e Deborah Sutton Chammah

A condução dos trabalhos ficou a cargo de Deborah Sutton Chammah, diretora de Educação da StandWithUs Brasil, que coordenou as apresentações dos grupos e as discussões. A dinâmica contou ainda com a participação dos facilitadores Anelise Froes, Joana Zlot, Mirella Radomysler, Augusto Lerner, Hanna Nusbaum, Sergio Napchan e da própria Deborah.

As propostas apresentadas pelos grupos foram analisadas por uma banca formada por especialistas reconhecidos em suas áreas: Andre Lajst, presidente executivo da StandWithUs Brasil; Rony Vainzof, secretário da CONIB; Andrea Vainer, diretora jurídica da entidade; e Marc Tawil, diretor da CONIB. Além de avaliar as sugestões, os especialistas enriqueceram os debates com experiências práticas, análises jurídicas e reflexões sobre os desafios atuais do enfrentamento ao preconceito.

André Lajst, Andrea Vainer, Rony Vainzof e Marc Tawil compuseram a banca

Durante a discussão sobre o antissionismo nas universidades, por exemplo, surgiu a proposta de ampliar iniciativas que promovam o conhecimento direto sobre a realidade israelense por meio de visitas acadêmicas e institucionais ao país. Andre Lajst compartilhou sua experiência na organização de missões para magistrados, autoridades, líderes políticos e professores, destacando o impacto transformador do contato direto com a realidade local.

Marc Tawil enfatizou a importância de criar pontes de diálogo capazes de romper barreiras e resistências em torno do tema. Já Rony Vainzof chamou atenção para experiências observadas em universidades norte-americanas, ressaltando a necessidade de estabelecer regras claras que garantam a liberdade de expressão sem permitir que ela seja utilizada como escudo para a discriminação e o discurso de ódio. Andrea Vainer, por sua vez, destacou a importância de diferenciar críticas legítimas às políticas de governo de Israel das manifestações antissemitas, distinção fundamental para qualificar o debate público.

Outro tema que despertou grande interesse foi o Caso Ellwanger, marco histórico na jurisprudência brasileira ao consolidar o entendimento de que o antissemitismo configura crime de racismo, estabelecendo um precedente relevante para o combate jurídico à discriminação.

Conhecimento que se transforma em compromisso

A Certificação em Enfrentamento ao Antissemitismo nasce da compreensão de que o combate ao preconceito exige não apenas reação, mas também prevenção, educação e formação contínua.

Ao longo do programa, os participantes foram incentivados a desenvolver uma visão crítica e multidisciplinar sobre o tema, compreendendo as raízes históricas do antissemitismo e suas novas formas de manifestação em um mundo marcado pela velocidade da informação e pela influência crescente das plataformas digitais.

O resultado é a formação de uma rede de pessoas capacitadas para identificar, denunciar e enfrentar discursos de ódio, promovendo ambientes mais seguros, inclusivos e respeitosos.

Próximos passos: expansão no Brasil e na América Latina

Diante dos resultados alcançados nesta primeira edição, a CONIB já trabalha na abertura de novas turmas para o segundo semestre de 2026. A expectativa é ampliar o alcance da iniciativa e fortalecer ainda mais a rede de lideranças comprometidas com o combate ao antissemitismo.

O projeto também inicia uma nova fase de expansão internacional. Com o apoio do Congresso Judaico Latino-Americano, a certificação deverá chegar a outros países da região, levando a experiência brasileira para novos contextos e fortalecendo uma rede latino-americana dedicada à promoção dos direitos humanos, da democracia, da liberdade e da convivência respeitosa entre diferentes grupos da sociedade.

Mais do que concluir um curso, os participantes encerraram uma etapa e iniciaram outra: a de transformar conhecimento em ação, reflexão em compromisso e aprendizado em impacto positivo. Em tempos de crescente polarização e disseminação de discursos de ódio, iniciativas como esta reafirmam que a educação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para construir pontes, combater o preconceito e fortalecer os valores que sustentam sociedades democráticas e pluralistas.

Texto: Celia Bensadon