No último domingo, 16, ocorreu no Memorial do Holocausto, a exibição do documentário “Portugal – Trampolim para a Liberdade”. A sessão foi seguida de um bate-papo, mediado por Sarita Mucinic Sarue, coordenadora de Educação e Cultura do Memorial do Holocausto de São Paulo, com o diretor do filme Ary Diesendruck, fotógrafo e cineasta, e contou com um grande público, que incluiu sobreviventes do Holocausto.
“Contar e recontar a história é importante para que ela não se repita. Infelizmente, temos visto no cenário atual fatos que mexem com a nossa memória coletiva, de um passado próximo e amargo. Preservar a vida a liberdade e não ser indiferente ao sofrimento do outro é o caminho para se construir um mundo melhor e mais humano”, discursou, antes de chamar Sarita, Ilana Rabinovici Iglicky, também coordenadora de Educação e Cultura do Memorial do Holocausto de São Paulo. Ela ainda agradeceu aos sobreviventes do Holocausto pela presença e pela força para que a missão de ensinar sobre ele, para que jamais se repita, continue.
Sarita, antes de passar a palavra para Ary, ressaltou a enorme importância do fortalecimento e da escuta de histórias como as retratadas no documentário, vendo a quantidade de pessoas boas que existem neste mundo. “Há essa possibilidade das pessoas se tornarem boas, mas temos que estar unidos, ouvir e aprender cada vez mais sobre nossa história”.
Ary começou sua fala agradecendo ao Memorial do Holocausto pela oportunidade de estar ali e pela presença de todos, e contou, primeiramente, sobre a história do filme, que começou em 2018, quando seu pai, Elcan Diesendruck, filho do Rabino Menahem Mendel Diesendruck, foi convidado para falar, em Israel, a convite de uma sinagoga que frequentava, a um público anglo-saxônico, acerca do que era o Judaísmo em Portugal. Para apresentar, ele montou um power-point, e quando o diretor viu os slides, teve a ideia de transformar o conteúdo em um pequeno documentário. “Começamos a rodar o filme em 2020, mas por conta da pandemia, essa produção teve uma pausa. Terminamos o filme somente em 2023, justamente nos 50 anos do falecimento do meu avô. E foi uma vivência muito intensa fazer um filme sobre ele, junto ao meu pai, não só pela história, mas também pela convivência”.

O cineasta e fotógrafo também destacou o fato de nossa comunidade estar passando por, em suas palavras, “um momento muito complicado, delicado e sensível em nossa existência”, com o aumento do antissemitismo. “É muito triste e assustador ver uma história sendo ignorada e vista de maneira descuidada.”
Ary, quando perguntado sobre o número de judeus que chegaram a Portugal na época retratada no filme e quantos judeus atualmente existem lá, resolveu não dizer números, pela imprecisão dos dados, mas destacou que a comunidade se divide em Lisboa, Cascais e Porto.
Quanto ao processo de pesquisa, o diretor mencionou a orientação de Avraham Milgram, historiador por três décadas do Yad Vashem, localizado em Jerusalém, em todo o trabalho. “Ele me preparou e orientou em todo o processo.” Também colocou que cada pessoa entrevistada, com seu background, costurou essa história.
Ary ainda comentou que o filme ainda está em festivais, mas que em breve, estará em plataformas de documentários, para depois ir para a internet.
“Para mim, a questão de fazer um filme, de contar uma história está relacionada diretamente com as memórias, os valores e com a nossa história. Estamos contando a respeito de um certo momento na vida do povo judeu, rememorando toda essa dificuldade que foi passar pela Europa naquele momento. A ideia principal do filme é manter essa memória viva através dele, e destacar a questão da receptividade do povo português para com os judeus em um mundo muito agressivo e contrário a presença judaica”, disse Ary.
“Eu já esperava a surpresa do público em relação ao filme, pois a história contada é pouco conhecida. A surpresa do público eu deixo na manga, mas eu já a espero. O que é bacana de ver é uma casa cheia, pessoas interessadas. Para mim é uma honra ver esse trabalho ser recebido dessa forma”, finalizou.

SOBRE O DIRETOR
Ary Diesendruck é um cineasta e fotógrafo que vive em São Paulo, Brasil, e tem fotografado ao redor do mundo desde 1985. Ele é professor do departamento de Cinema do Centro Universitário Armando Alvares Penteado (FAAP).
SOBRE O FILME
“Portugal – Trampolim para a Liberdade” é um documentário de 2024, dirigido pelo cineasta e fotógrafo Ary Diesendruck, que narra como o país se tornou rota de fuga para judeus que fugiam da perseguição nazista. O enredo gira em torno das lembranças e buscas por informações de Elcan Diesendruck, filho do Rabino Menahem Mendel Diesendruck, que na época, teve um papel fundamental na salvação desses judeus. O filme teve gravações em São Paulo, Jerusalém, Nova Iorque e Lisboa.
Assista ao trailer: