Célia Parnes
Há momentos em que a exaustão moral se impõe antes mesmo do cansaço físico. Momentos em que o esforço para sustentar princípios básicos verdade, honestidade intelectual, responsabilidade pública começa a parecer desproporcional diante do ambiente ao redor. Este é um desses momentos.
Não podemos desistir. Mas dá vontade.
O que se observa hoje em parte do jornalismo não é apenas uma mudança de linha editorial ou de enquadramento narrativo. É algo mais profundo e mais preocupante: uma deterioração ética que já não se disfarça. Um número crescente de profissionais da imprensa passou a explicitar, sem constrangimento, posições que antes seriam reconhecidas como preconceito e, no caso específico do antissemitismo, como moralmente inaceitáveis.
Não se trata de crítica a políticas de um governo, algo legítimo e necessário em qualquer democracia. Trata-se da substituição da análise por distorção sistemática, da informação por ativismo disfarçado, da apuração por militância. É um padrão recorrente de deslegitimação, de aplicação de critérios morais seletivos e de construção de narrativas que ultrapassam o campo da crítica e adentram o terreno da hostilidade.
O mais inquietante não é que isso exista preconceitos sempre existiram. O que mudou foi o ambiente de permissividade.
A antiga noção de que o jornalismo exige isenção ou, ao menos, o esforço honesto de buscá-la parece ter sido abandonada por uma parcela ruidosa da profissão. Em seu lugar, instalou-se uma lógica de engajamento ideológico em que a opinião não apenas contamina a informação, mas a substitui integralmente.
Quando esses profissionais começam a operar com conclusões prévias e selecionam fatos apenas para confirmá-las, deixam de exercer a função de informar e passam a desempenhar a de persuadir. E quando essa persuasão é orientada por agendas próprias políticas, identitárias ou simplesmente oportunistas, o resultado é a erosão da credibilidade.
Credibilidade, aliás, tornou-se a grande vítima silenciosa desse processo.
O público percebe. Ainda que nem sempre consiga nomear com precisão o problema, sente quando algo é artificial, forçado, enviesado. Sente quando a notícia já chega pronta, moldada para conduzir a uma conclusão específica. E, sobretudo, sente quando há uma assimetria evidente: quando certos temas são tratados com rigor extremo e outros, com indulgência complacente.
Esse duplo padrão não é apenas uma falha técnica; é uma falha moral.
E aqui reside um ponto central: o antissemitismo contemporâneo raramente se apresenta como tal. Manifesta-se travestido de linguagem política, de indignação seletiva, de discursos que reivindicam virtude enquanto reproduzem, de forma sofisticada, velhos padrões de exclusão. A demonização sistemática de Israel, a negação implícita do direito de autodeterminação judaica e a imposição de critérios não aplicados a nenhum outro país não são fenômenos isolados são sintomas de algo maior.
Quando tais vozes aderem a esse tipo de narrativa, deixam de ser observadores críticos e tornam-se agentes de amplificação.
Isso não é apenas um problema ético; é um problema de qualidade.
Porque o bom jornalismo exige complexidade, nuances e capacidade de lidar com contradições. Exige, acima de tudo, compromisso com a realidade mesmo quando ela não se encaixa em preferências pessoais. O que se vê hoje, em muitos casos, é o oposto: simplificação grosseira, recortes convenientes e uma disposição quase militante de ignorar fatos que atrapalham a narrativa desejada.
Não é apenas parcialidade. É mediocridade.
Aqueles que renunciam à apuração rigorosa em favor de slogans perdem não só a isenção, mas também a relevância. Tornam-se previsíveis e, ao se tornarem previsíveis, tornam-se dispensáveis.
A consequência é um ciclo perverso: quanto menor a credibilidade, maior a necessidade de recorrer ao ruído, à provocação e ao extremismo para manter atenção. E quanto mais esse ciclo se intensifica, mais se deteriora o espaço público.
É nesse ponto que surge a sensação de esgotamento: a vontade de recuar, de se afastar de um debate que, em muitos momentos, apresenta-se contaminado desde a origem.
Mas é precisamente aqui que não podemos desistir.
Porque a alternativa à deterioração do jornalismo não é o silêncio, mas a insistência. Insistência em padrões mais altos, em critérios mais justos, em uma defesa clara e sem concessões daquilo que deveria ser o mínimo: honestidade intelectual.
A vontade de desistir é compreensível, mas ceder a ela significaria entregar o espaço público à distorção permanente.
E isso, definitivamente, não é uma opção.
Célia Parnes foi Secretária Estadual de Desenvolvimento Social de São Paulo e é presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo e secretária geral da Confederação Israelita do Brasil













